Como NÃO construir uma calçada acessível

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Basta darmos uma voltinha pela cidade para sentirmos uma certa dificuldade em passarmos livremente pelas calçadas. Se você estiver com um carrinho de bebê então já começa a ficar complicado: desvia daqui e dali, sai da calçada quebrada pela raiz da árvore que cresceu demais, passa pelo lado do degrau que construíram em frente a casa, cuida para não escorregar no piso cerâmico que alguém achou bacana e que parece um sabão em dias de chuva. Todos nós já passamos por algum desses obstáculos em algum passeio de nossas vidas, ou passamos todo dia indo e voltando do trabalho. Se isso é ruim para quem pode andar e enxerga bem, imagine para quem tem alguma deficiência!

O princípio básico para a acessibilidade é bem simples: se é bom para o deficiente, é bom para você. Isso se chama acessibilidade universal, ou seja, se está acessível para quem tem deficiência, então está acessível para quem tem mobilidade reduzida, seja por idade, por estar gestante, com carrinho de bebê, ou simplesmente porque você quebrou a perna naquele jogo de futebol e vai andar com botinha de gesso por um mês.

Neste artigo, vamos comentar os principais erros ao se construir uma calçada (que deveria ser) acessível. Por incrível que pareça, às vezes elas atrapalham mais do que ajudam na mobilidade urbana.


Acesso aos cadeirantes


Para os cadeirantes a principal dificuldade na locomoção são obstáculos e inclinações fora de norma nas calçadas. A norma que rege as inclinações e todos os parâmetros de acessibilidade é a NBR 9050, e nela está descrito que a inclinação longitudinal de uma calçada deve seguir a inclinação da rua, porém, não deve ultrapassar os 8,33%, ou seja, nada de lombadas em frente a entrada da sua garagem! Da mesma forma a inclinação transversal (na largura da calçada) não pode ser maior do que 3%. Quer um exemplo de como não fazer? Observe as imagens a seguir:

 

Nos exemplos acima, além de vermos inclinações erradas e obstáculos que impedem a passagem de cadeirantes, ainda não existem os pisos direcionais para indicar onde existem postes, entrada e saída de veículos e acesso ao rebaixo da guia e faixa de pedestres. Isso, além de importante para o cadeirante é essencial para o deficiente visual.

A calçada para deficientes visuais



Para os deficientes visuais é importante que além de as inclinações estarem corretas e as calçadas preferencialmente não possuírem degraus, exista toda uma sinalização para que ele consiga se guiar de forma segura pelo trajeto. Para um cego é essencial a indicação do caminho e dos obstáculos a sua frente e acima da sua cabeça, para evitar trombadas e acidentes. Em um próximo artigo falaremos sobre isso mais detalhadamente, mas por ora é importante conhecermos os pisos táteis, que são os sinalizadores para que os deficientes visuais possam se locomover com conforto e segurança.

Uma dica muito importante quando falamos de acessibilidade é: piso tátil não é enfeite! Ele não serve para deixar a calçada mais bonitinha, ele serve para fins específicos e deve ser usado corretamente. O uso do tipo incorreto de piso tátil causa confusão ao deficiente visual e pode ocasionar um acidente grave.

Segundo a NBR 9050 existem dois tipos de pisos táteis: o piso direcional e o piso de alerta. O direcional, como o próprio nome já diz, direciona o deficiente por uma rota segura. Já o piso de alerta deve ser usado para indicar um obstáculo ou mudança de direção (sim, ele também serve para isso e é importante!). O cego, que utiliza bengala, se movimenta tateando o piso e é pela sua rugosidade que ele “enxerga” o tipo de piso e segue em frente ou não. Veja bem, ele não aprende a sentir o piso pelos pés, afinal um sapato de solado grosso pode atrapalhar esse sentido. Sendo assim o piso hoje já não é mais chamado de “podotátil”, afinal o cego não anda descalço na rua, ele sente o piso basicamente pela bengala. Obviamente, com um calçado de solado fino, a experiência sensorial se intensifica. Esta experiência, pude ter na prática, vendada e guiada por um cego, em uma vivência sobre acessibilidade promovida na minha cidade. Com ele aprendi muito e foi assim que também desmistifiquei a ideia de que o deficiente visual sente o piso pelos pés ao caminhar.


Caminhando pelas calçadas podemos ver em vários locais uma sinalização completamente equivocada utilizando pisos táteis, seja levando o deficiente diretamente para um ponto perigoso (ou parando em lugar nenhum), seja colocando o tipo errado de piso (por exemplo, um caminho inteiro de piso de alerta). Uma informação importante ao se projetar calçadas com pisos táteis é a de que o deficiente precisa ser guiado sempre para a rota mais segura, ou seja, para as faixas de travessia junto aos semáforos, e para o transporte coletivo como pontos e terminais de ônibus e metrôs.

Agora vejamos mais alguns exemplos do que não se deve fazer com o piso tátil:


Veja a imagem abaixo, confusão total: Piso direcional (amarelo) ladeado o trajeto todo por piso de alerta (azul), algo totalmente desnecessário, pois deveria ser utilizado apenas para indicar obstáculo ou mudança de direção. Além disso, o piso preto perto da rua também é direcional quando deveria ser de alerta e não contentes, utilizaram o piso de alerta vermelho para indicar ninguém sabe o quê para o deficiente, já que liga o rebaixo da guia até a entrada da edificação. Notem ainda que depois de toda essa confusão há um desnível e o piso tátil some até o fim da rua.


Mais uma calçada onde o piso tátil parece ter sido usado com enfeite: não há piso direcional, apenas alerta, o que indica que o deficiente visual deve mudar de direção, e seguir por outro caminho...mas qual?


Estes exemplos são bem mais comuns do que se imagina nas diversas cidades brasileiras. A NBR 9050 é até bastante clara em relação à acessibilidade em calçadas. Vale olharmos com mais atenção para as reais necessidades das pessoas portadoras de deficiência, principalmente por parte das pessoas que trabalham com este tipo de projeto. Um cego, por exemplo, pode ser direcionado sim para um muro ou canteiro, pois ele se guiará batendo a bengala ao longo do trajeto neste elemento. Porém isso não pode ser feito como na Av. Paulista, sem nenhum piso direcional indicando que vamos mudar o sentido do trajeto e que ali há um obstáculo e é preciso ficar atento. O cego enxerga o mundo de outra forma e é preciso deixar a sinalização bem clara. Da mesma forma uma inclinação de calçada precisa seguir a norma, que foi estudada para que cadeirantes com menos força nos braços possam acessar os espaços sozinhos. Uma rampa ou acesso muito inclinados podem impedi-los de conseguirem guiar a cadeira de rodas.

E, para finalizar, eu adoraria saber a sua opinião sobre esse artigo.

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Por Ana Carolina Moura Cardoso – Arquiteta e Urbanista


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